quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Restauração e Multiplicação - Jó e Sua Humilhação

"Quem dera as minhas palavras fossem registradas! Quem dera fossem escritas num livro, fossem talhadas a ferro no chumbo, ou gravadas para sempre na rocha! Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra. E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei, com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro! Como anseia no meu peito o coração!” (Jó 19:23-27)
  
SEIS ÁREAS NA VIDA DE JÓ QUE FORAM ATINGIDAS PELO MAL.

1. Seus bens materiais.
“Aleluia! Como é feliz o homem que teme o Senhor e tem grande prazer em seus mandamentos! Seus descendentes serão poderosos na terra, serão uma geração abençoada, de homens íntegros. Grande riqueza há em sua casa, e a sua justiça dura para sempre.” (Salmos 112:1-3).

Na relação de bens do capítulo 1 versículos 13 a 17 estão relacionados 7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 500 jutas de boi e 500 jumentos. Portanto, podemos afirmar que Jó realmente era um homem muito rico.

2. Seus filhos e filhas.
“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá. Como flechas nas mãos do guerreiro são os filhos nascidos na juventude. Como é feliz o homem cuja aljava está cheia deles! Não será humilhado quando enfrentar seus inimigos no tribunal.” (Salmos 127:3-5).

Se levarmos em conta as atitudes de Jó em relação aos seus filhos, concluiremos que eles eram sua maior riqueza.

I – Oferecia sacrifícios por eles.
“Seus filhos costumavam dar banquetes em casa, um de cada vez, e convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles. Terminado um período de banquetes, Jó mandava chamá-los e fazia com que se purificassem. De madrugada ele oferecia um holocausto em favor de cada um deles, pois pensava: "Talvez os meus filhos tenham lá no íntimo pecado e amaldiçoado a Deus". Essa era a prática constante de Jó.” (Jó 1:4-5).

II – Encabeçavam a lista de coisas valiosas que possuía.
“Tinha ele sete filhos e três filhas.”(Jó 1:2).

III – Grande lamento quando soube da morte dos filhos.
“Enquanto ele ainda estava falando, chegou ainda outro mensageiro e disse: "Seus filhos e suas filhas estavam num banquete, comendo e bebendo vinho na casa do irmão mais velho, quando, de repente, um vento muito forte veio do deserto e atingiu os quatro cantos da casa, que desabou. Eles morreram, e eu fui o único que escapou para lhe contar!" Ao ouvir isso, Jó levantou-se, rasgou o manto e rapou a cabeça. Então prostrou-se no chão em adoração.” (Jó 1:18-20)

3. Seu casamento.
“Quem encontra uma esposa encontra algo excelente; recebeu uma bênção do Senhor.” (Provérbios 18:22).

I - Sua fé vacilante ao contemplar o estado deplorável do marido.
“Saiu, pois, Satanás da presença do Senhor e afligiu Jó com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça. Então Jó apanhou um caco de louça com o qual se raspava, sentado entre as cinzas. Então sua mulher lhe disse: "Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus, e morra!" Ele respondeu: "Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal? " Em tudo isso Jó não pecou com os lábios. (Jó 2: 7-10).

II - A dificuldade que esta tinha de aproximar-se de Jó por causa de suas chagas.
“Minha mulher acha repugnante o meu hálito.” (Jó 19:17-A)

4. Sua saúde.
“Amado, oro para que você tenha boa saúde e tudo lhe corra bem, assim como vai bem a sua alma.” (3 João 1:2).

“Pele por pele”, filosofia diabólica que sugere que a fé e a justiça de uma pessoa se baseia nas bênçãos que Deus concede.

I – Saúde física.
"Pele por pele!", respondeu Satanás. "Um homem dará tudo o que tem por sua vida. Estende a tua mão e fere a sua carne e os seus ossos, e com certeza ele te amaldiçoará na tua face." (Jó 2:4-5).

II – Saúde emocional.
"Por isso não me calo; na aflição do meu espírito me desabafarei, na amargura da minha alma farei as minhas queixas.” (Jó 7:11).

5. Suas amizades.
“O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade.” (Provérbios 17:17).

I – Deles não recebeu nenhum apoio ou palavra amiga, apenas acusações.
“Pois agora vocês de nada me valeram; contemplam minha temível situação, e se enchem de medo.” (Jó 6:21).

II – Se mostraram vazios no tempo da aflição e adversidade de Jó.
"Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso. Mas os meus irmãos enganaram-me como riachos temporários, como os riachos que transbordam quando o degelo os torna turvos e a neve que se derrete os faz encher, mas que param de fluir no tempo da seca, e no calor desaparecem dos seus leitos. As caravanas se desviam de suas rotas; sobem para lugares desertos e perecem. Procuram água as caravanas de Temá, olham esperançosos os mercadores de Sabá. Ficam tristes, porque estavam confiantes; lá chegaram tão-somente para sofrer decepção.” (Jó 6:14-20).

6. Sua honra.
“A boa reputação vale mais que grandes riquezas; desfrutar de boa estima vale mais que prata e ouro.” (Provérbios 22:1).

I – Sentiu a dor da solidão e do desamparo.
"Ele afastou de mim os meus irmãos; até os meus conhecidos estão longe de mim. Os meus parentes me abandonaram e os meus amigos esqueceram-se de mim.” (Jó 19:13-14).

II – Isolado e desrespeitado por seus próprios empregados.
“Os meus hóspedes e as minhas servas consideram-me estrangeiro; vêem-me como um estranho. Chamo o meu servo, mas ele não me responde, ainda que eu lhe implore pessoalmente.” (Jó 19:15-16).

III – Desprezado pelos que antes lhe pediam conselhos.
“Até os meninos zombam de mim, e dão risada quando apareço. Todos os meus amigos chegados me detestam; aqueles a quem amo voltaram-se contra mim.” (Jó 19:18-19).
  
PORÉM TEVE UMA ÁREA DA VIDA DE JÓ QUE O MAL NÃO CONSEGUIU ATINGIR.

1. Sua vida espiritual.
“Bendiga ao Senhor a minha alma! Não esqueça de nenhuma de suas bênçãos!” (Salmos 103:2)

I – Um adorador sincero.
“Ao ouvir isso, Jó levantou-se, rasgou o manto e rapou a cabeça. Então prostrou-se no chão em adoração, e disse: "Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor ". Em tudo isso Jó não pecou nem de nada culpou a Deus.” (Jó 1:20-22).

II – Detentor de uma fé incondicional no Redentor que vive.
“Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra.” (Jó 19:25).

III – Uma inabalável esperança no prêmio da vida eterna.
“E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei, com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro! Como anseia no meu peito o coração!” (Jó 19:26-27).




Palavra ministrada na IPR – Igreja Presbiteriana Renovada de Chapadão do Sul-MS na noite de 18/01/2012 na Campanha ‘Vencendo 2012 Com Fé e Oração’.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A Solidão do Pastor

Pastores costumam ser pessoas solitárias, por vocação. Conheço muitos pastores que têm amigos de verdade, e, no entanto, têm forte tendência à solidão! A maior parte deles vive se remoendo, enquanto lutam com seus problemas interiores, sem poder encontrar um amigo de confiança com o qual desabafar. Não podem conversar sobre seus problemas e conflitos com os membros da igreja; e sequer com os demais obreiros. Desabafam com Deus, enquanto derramam o coração em lágrimas em seus momentos de solidão. Pastores sofrem com a solidão. Ainda que acompanhados de tanta gente e cercados de colegas ministeriais vivem sós. Geralmente os obreiros que os cercam não o fazem como amigos ou companheiros de jugo, vivem de encômios – aplaudem e elogiam em busca de cargos ou privilégios. Raramente encontra-se um amigo que viva o compromisso de ajudar o líder, a ponto de admoestá-lo com amor.

Por outro lado, o líder em evidência se põe perante os demais colegas ministeriais como gente de esfera superior, que não precisa da ajuda de ninguém, como super-homem, intocável, impecável – isto mesmo, no sentido de que nunca peca – inviolável e que sabe superar seus problemas. Perante seus amigos e colegas tem uma imagem colorida de sucesso e poder – mas tais pastores são pessoas ímbeles, débeis, fracas, e esquecem que o poder de viver integralmente a vida cristã reside na dependência de Deus e na força de seus amigos.

Pastores são como águias que voam sós e vivem nos céus distantes – acima dos problemas – mas cheios destes. Deveriam agir como águias quando a sós com Deus, e quais ovelhas de um rebanho a viver ao lado dos demais.

Eis a razão porque os pastores aprendem a sofrer calados. Choram aos pés do Senhor confessando suas faltas. E gostariam de ter um amigo por perto. Mas, desabafar a quem? Arredios e acostumados a serem traídos, inteligentemente se calam. E sofrem. Gostariam de ter um amigo para conversar sobre sexo, dificuldades com a esposa, tentações, finanças, problemas pessoais, mas sofrem, ignotos, temendo o colega infido - infiel. Imaginam que podem ser traídos e prejudicados. Que diferença a confissão de pecados que os noviços e monges faziam ao seu superior nos mosteiros! Nada do que era confessado podia ser usado contra eles em juízo. Depois que se confessava, seu superior se calava sem jamais poder usar da confissão de seu subalterno como prova de condenação em juízo. Um superior quando sabia que o noviço pecara contra a igreja não aceitava confissão, do contrário a pessoa não poderia ser questionada por ele no tribunal.

Na falta de confessores, os pastores digladiam-se internamente com seus traumas e pecados. Esquecem que a confissão traz alivio à tensão, desabafa sentimentos, cura e traz paz interior. A confissão e as lágrimas ajudam o pastor a sentir que é humano, ao mesmo tempo em que é espiritual. A confissão afasta a caligem e impede que o obreiro se torne biltre e mendaz.
O verdadeiro líder encontra noutro líder, apoio, pois ambos reconhecem a fragilidade e a tendência ao pecado do ser humano. O verdadeiro líder entende que as pessoas vivem na fraqueza, e ele também sabe que vive as mesmas fraquezas.

As Escrituras não escondem as fraquezas e as tentações dos homens de Deus, até dos mais íntimos de Jeová. Noé, Abraão, Moisés, Davi, Elias e demais homens de Deus tiveram seus momentos de fraqueza, e alguns deles são vistos em momentos de depressão, e quando o escritor aos hebreus deles se utiliza para falar da fé, não menciona, em momento algum suas fraquezas, mas a fé e a perseverança que lhes levou a obter o galardão. Todos tiveram temores. Sara, a esposa de Abraão não creu – e, no entanto aparece em Hebreus como mulher de fé! Algumas daquelas fraquezas são imperdoáveis e inadmissíveis hoje pela liderança de certas denominações.

Que pastor não tem um exemplo de traição, de um obreiro que agiu de solércia – de ardileza a relatar? Quem transmitiu ao rebanho a idéia de que nós, pastores vivemos do gáudio e do júbilo apenas? Por que o rebanho imagina que o pastor e seu báculo com seu aspecto dominante são intocáveis? Todos temos fraquezas.

Podemos recender ao perfume de Deus, ao brilho de sua glória, mas Deus sempre deixa um quê de imperfeição para manter-nos humildes diante dele. Na vida familiar uma esposa que não acompanha o obreiro ministerialmente, um filho que se desvia; um negócio que emperra; uma calúnia que nos atordoa; um pecado do qual não conseguimos nos desvencilhar; qualquer coisa, para que nos envergonhemos de nossa imperfeição. O pastor - quando olha para o espelho e vê refletido nele a glória de Deus tem a tendência de se exaltar, mas ao olhar para si mesmo, percebe que a glória de Deus que sobre ele está acentua sua imperfeição, e se põe a chorar!

Paulo tinha uma fraqueza; todos temos fraquezas. Os santos caminham com fraquezas. Sempre que pensava em contar vantagens - gloriar-se - um mensageiro de Satanás esbofeteava a Paulo. Creio que esse espinho na carne não era uma doença física, mas alguma coisa no mundo espiritual. Já que visões, sonhos e revelações estão bem acima do natural, esse espinho, bem como o demônio que o atormentava situavam-se numa esfera espiritual. Deixe-me dizer isto: certas marcas de pecado jazem em nossa mente a fim de lembrar-nos de que somos salvos e vivemos por causa da graça de Deus. Paulo orou três vezes - mas Deus não afastou a imagem que o oprimia. Deus conhece a fraqueza de Paulo e indica-lhe que terá de conviver com ela toda a vida. A resposta de Deus? "A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo..." (2 Co 12.9).

"Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4.7). Meu colega pastor deixe-me dizer uma coisa: A glória de Deus somente opera em vasos imperfeitos. E nossa imperfeição está ali, apontando para nós, dizendo-nos que precisamos de Deus, sempre! Deus deixa certas falhas nos seus filhos para que aprendam a depender exclusivamente dele. A glória e a graça de Deus vêm sobre nós escondendo nossas fraquezas. Assim como os pés dos querubins eram pés de bezerro, na descrição de Ezequiel - feios – mas brilham com a glória de Deus, nosso caminhar é santificado por sua glória.

Somos como o Mefibosete da Bíblia. Este neto de Saul, aleijado de ambos os pés; este filho de Jônatas é agora trazido para a casa de Davi e com ele come à mesa. Mas era aleijado! No entanto, suas pernas não eram vistas, ficavam encobertas sob as toalhas da mesma do rei! (2 Sm 9). Somos imperfeitos no nosso caminhar - temos pés que não condizem com a natureza de glória, estes, no entanto, têm suas imperfeições cobertas com o brilho da glória de Deus!

No meio das tribulações - sejam elas devido a erros cometidos, a falhas humanas ou vindas diretamente de Satanás, o peso de glória é eterno, acima de toda comparação (2 Co 4.18). Porque a glória que sobre nós brilha vem de Deus. Apenas refletimos a glória de Deus!

Por isso, ao descrever este relato, faço-o na certeza de que não estou traindo alguém que me confiou seus temores. A pessoa em questão pode ser você mesmo que me lê. A que me refiro está velha demais para se importar com o fato. Viajo e ministro com pastores de todas as igrejas e de todas as denominações. Alguns homens de Deus abrem sua vida comigo à busca de soluções para seus problemas pessoais. E não posso trair a confiança em mim depositada.

O velho pastor abriu seu coração comigo. Ele tinha perguntas e inquietações não respondidas. Homem de ministério ilibado, reconhecido pela igreja, contou-me que lutou a vida toda contra as tendências homossexuais que o perturbavam periodicamente. Aceitava-se como heterossexual, constituíra família, mas não conseguia entender o por quê das tentações. Tivera uma experiência ou outra quando moço, mas depois que se convertera – afirmou – jamais voltara a práticas homossexuais por considerá-las pecado. As tentações o assombravam continuamente. Jamais se livrou delas ao longo da vida.

Sofrer tentações sem pecar é o segredo da vitória. Um hino da Harpa Cristã de linda melodia, diz:
Tentado não cedas; ceder é pecar;
Melhor e mais nobre, será triunfar;
Coragem ó crente! Domina teu mal
Deus pode livrar-te, de queda fatal!

É uma alusão ao texto de hebreus 4.15: "Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (...) e é capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele mesmo está rodeado de fraquezas".

É nesta confiança, amado pastor, que confessamos ao Senhor nossas faltas, porque ele nos entende. À semelhança do sumo sacerdote que vivia cercado de fraquezas e que precisava, ele mesmo fazer a purificação de seus pecados antes de expiar os pecados do povo, também nós precisamos entender que os colegas que nos cercam vivem rodeados de fraquezas, que erram, e, como nós, são perdoados.

O nosso Senhor Jesus assumiu a forma humana, "para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote, nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados" (Hb 2.17-18).

Tenha um amigo. Abra seu coração

Autor - João A. de Souza filho

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Decepção com os rumos do pastoreio moderno

O pastor herege
Gerson Freitas Jr 27 de abril de 2011 às 8:48h

“Deus nos livre de um Brasil evangélico”, diz o religioso Ricardo Gondim, crítico dos movimentos neopentecostais. Por Gerson Freitas Jr. Foto: Olga Vlahou

“Deus nos livre de um Brasil evangélico.” Quem afirma é um pastor, o cearense Ricardo Gondim. Segundo ele, o movimento neopentecostal se expande com um projeto de poder e imposição de valores, mas em seu crescimento estão as raízes da própria decadência. Os evangélicos, diz Gondim, absorvem cada vez mais elementos do perfil religioso típico dos brasileiros, embora tendam a recrudescer em questões como o aborto e os direitos homossexuais. Aos 57 anos, pastor há 34, Gondim é líder da Igreja Betesda e mestre em teologia pela Universidade Metodista. E tornou-se um dos mais populares críticos do mainstream evangélico, o que o transformou em alvo. “Sou o herege da vez”,  diz na entrevista a seguir.

CartaCapital: Os evangélicos tiveram papel importante nas últimas eleições. O Brasil está se tornando um país mais influenciável pelo discurso desse movimento?

Ricardo Gondim: Sim, mesmo porque, é notório o crescimento do número de evangélicos. Mas é importante fazer uma ponderação qualitativa. Quanto mais cresce, mais o movimento evangélico também se deixa influenciar. O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos se dispersam, e os evangélicos ficam mais próximos do perfil religioso típico do brasileiro.

CC: Como o senhor define esse perfil?

RG: Extremamente eclético e ecumênico. Pela primeira vez, temos evangélicos que pertencem também a comunidades católicas ou espíritas. Já se fala em um “evangelicalismo popular”, nos moldes do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás. O movimento cresce, mas perde força. E por isso tem de eleger alguns temas que lhe assegurem uma identidade. Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.

CC: O senhor escreveu um artigo intitulado “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”. Por que um pastor evangélico afirma isso?

RG: Porque esse projeto impõe não só a espiritualidade, mas toda a cultura, estética e cosmovisão do mundo evangélico, o que não é de nenhum modo desejável. Seria a talebanização do Brasil. Precisamos da diversidade cultural e religiosa. O movimento evangélico se expande com a proposta de ser a maioria, para poder cada vez mais definir o rumo das eleições e, quem sabe, escolher o presidente da República. Isso fica muito claro no projeto da Igreja Universal. O objetivo de ter o pastor no Congresso, nas instâncias de poder, é o de facilitar a expansão da igreja. E, nesse sentido, o movimento é maquiavélico. Se é para salvar o Brasil da perdição, os fins justificam os meios.

CC: O movimento americano é a grande inspiração para os evangélicos no Brasil?

RG: O movimento brasileiro é filho direto do fundamentalismo norte-americano. Os Estados Unidos exportam seu american way oflife de várias maneiras, e a igreja evangélica é uma das principais. As lideranças daqui leem basicamente os autores norte-americanos e neles buscam toda a sua espiritualidade, teologia e normatização comportamental. A igreja americana é pragmática, gerencial, o que é muito próprio daquela cultura. Funciona como uma agência prestadora de serviços religiosos, de cura, libertação, prosperidade financeira. Em um país como o Brasil, onde quase todos nascem católicos, a igreja evangélica precisa ser extremamente ágil, pragmática e oferecer resultados para se impor. É uma lógica individualista e antiética. Um ensino muito comum nas igrejas é a de que Deus abre portas de emprego para os fiéis. Eu ensino minha comunidade a se desvincular dessa linguagem. Nós nos revoltamos quando ouvimos que algum político abriu uma porta para o apadrinhado. Por que seria diferente com Deus?

CC: O senhor afirma que a igreja evangélica brasileira está em decadência, mas o movimento continua a crescer.

RG: Uma igreja que, para se sustentar, precisa de campanhas cada vez mais mirabolantes, um discurso cada vez mais histriônico e promessas cada vez mais absurdas está em decadência. Se para ter a sua adesão eu preciso apelar a valores cada vez mais primitivos e sensoriais e produzir o medo do mundo mágico, transcendental, então a minha mensagem está fragilizada.

CC: Pode-se dizer o mesmo do movimento norte-americano?

RG: Muitos dizem que sim, apesar dos números. Há um entusiasmo crescente dos mesmos, mas uma rejeição cada vez maior dos que estão de fora. Hoje, nos Estados Unidos, uma pessoa que não tenha sido criada no meio e que tenha um mínimo de senso crítico nunca vai se aproximar dessa igreja, associada ao Bush, à intolerância em todos os sentidos, ao Tea Party, à guerra.

CC: O senhor é a favor da união civil entre homossexuais?

RG: Sou a favor. O Brasil é um país laico. Minhas convicções de fé não podem influenciar, tampouco atropelar o direito de outros. Temos de respeitar as necessidades e aspirações que surgem a partir de outra realidade social. A comunidade gay aspira por relacionamentos juridicamente estáveis. A nação tem de considerar essa demanda. E a igreja deve entender que nem todas as relações homossensuais são promíscuas. Tenho minhas posições contra a promiscuidade, que considero ruim para as relações humanas, mas isso não tem uma relação estreita com a homossexualidade ou heterossexualidade.

CC: O senhor enfrenta muita oposição de seus pares?

RG: Muita! Fui eleito o herege da vez. Entre outras coisas, porque advogo a tese de que a teologia de um Deus títere, controlador da história, não cabe mais. Pode ter cabido na era medieval, mas não hoje. O Deus em que creio não controla, mas ama. É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo muito com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida.

CC: Mas os movimentos cristãos foram sempre na direção oposta.

RG: Não necessariamente. Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Porque o PL 122/2006 é inconstitucional

Porque o PL 122/2006 é inconstitucional

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Antes de fazer qualquer comentário, é importante frisar que uma coisa é criticar conduta, outra é discriminar pessoas. No Brasil, pode-se criticar o Presidente da República, o Judiciário, o Legislativo, os católicos, os evangélicos, mas, se criticamos a prática homossexual, logo somos rotulados de homofóbicos. Na verdade, o PL-122 é contra o artigo 5º da Constituição, porque o projeto de lei quer criminalizar a opinião, bem como a liberdade religiosa.

Vejamos alguns artigos deste PL:


Artigo 1º: Serão punidos na forma desta lei os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual, identidade de gêneros.

Comentário: Eles tentam se escorar na questão de raça e religião para se beneficiar. O perigo do artigo 1º é a livre orientação sexual. Esta é a primeira porta para a pedofilia. É bom ressaltar que o homossexualismo é comportamental, ninguém nasce homossexual; este é um comportamento como tantos outros do ser humano.

Artigo 4º: Praticar o empregador, ou seu preposto, atos de dispensa direta ou indireta. Pena: reclusão de 2 a 5 anos.

Comentário: Não serão os pais que vão determinar a educação dos filhos — porque se os pais descobrirem que a babá dos seus filhos é homossexual, e eles não quiserem que seus filhos sejam orientados por um homossexual, poderão ir para a cadeia.

Artigo 8º-A: Impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público, em virtude das características previstas no artigo 1º desta lei. Pena: reclusão de dois a cinco anos.

Comentário: Isto significa dizer que se um pastor, ou padre, ou diretor de escola — que por questões de princípios — não queira que no pátio da igreja, ou escola haja manifestações de afetividade, irão para a cadeia.

Artigo 8º-B: Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs. Pena: reclusão de dois a cinco anos.

Comentário: O princípio do comentário é o mesmo que o do anterior, com um agravante: a preferência agora é dos homossexuais; nós, míseros heterossexuais, podemos também ter direito à livre expressão, depois que é garantida aos homossexuais. O parágrafo do artigo que vamos comentar a seguir "constituiu efeito de condenação".

Artigo 16º, parágrafo 5ª: O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.

Comentário: Aqui está o ápice do absurdo: o que é ação constrangedora, intimidatória, de ordem moral, ética, filosófica e psicológica? Com este parágrafo a Bíblia vira um livro homofóbico, pois qualquer homossexual poderá reivindicar que se sente constrangido, intimidado pelos capítulos da Bíblia que condenam a prática homossexual. É a ditadura da minoria querendo colocar a mordaça na maioria. O Brasil é formado por 90% de cristãos. Não queremos impedir ou cercear ninguém que tenha a prática homossexual, mas não pode haver lei que impeça a liberdade de expressão e religiosa que são garantidas no Artigo 5º da Constituição brasileira. Para qualquer violência que se cometa contra o homossexual está prevista, em lei, reparação a ele; bem como assim está para os heterossexuais. A PL-122 não tem nada a ver com a defesa do homossexual, mas, sim, quer criminalizar os contrários à prática homossexual — e fazem isso escorados na questão do racismo e da religião.


Fonte: Associação Vitória em Cristo 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Uma jornada feliz e próspera

“Hoje, o exemplo negativo daquelas irmãs nos chama a atenção para o nosso papel. Que sejamos instrumentos para promover a paz, a harmonia e a reconciliação”

Evódia e Síntique eram duas conceituadas mulheres macedônicas. Elas tinham grande destaque na igreja cristã de Filipos, cidade da Macedônia oriental, a cerca de 16 quilômetros da costa do Mar Egeu. Na sua carta aos filipenses, o apóstolo Paulo cita-as nominalmente e menciona que elas deveriam se entender melhor diante do Senhor. Elas eram conhecidas por terem forte personalidade e a desavença entre ambas quebrava a harmonia e o bem-estar daquela comunidade a quem Paulo ministrava, por assim dizer, o dom da alegria, do gozo e do regozijo redobrado.

Paulo diz solenemente: “Rogo a Evódia e rogo a Síntique que sintam o mesmo no Senhor” (Filipenses 4.2). A leitura pública de uma carta vinda das mãos de um homem de Deus com o caráter do apóstolo certamente poderia provocar o afastamento de ambas por iniciativa própria, pois ficariam envergonhadas – ou elas, por si mesmas, tomariam posição de compor “a alegria e coroa de Paulo” de firmeza no Senhor. Reforçando ainda que a desavença deveria ser sanada, Paulo, no versículo 3, apela para um companheiro que ajudasse aquelas mulheres. Afinal, friso, elas trabalharam com ele e desfrutaram da sua companhia pessoal, mas algo estranho estava ocorrendo entre ambas.

Curiosamente, não se tem nenhuma pista do que realmente acontecia entre Evódia e Síntique. Também, fosse qual fosse a querela, como se sabe, diante da Cruz de Cristo ninguém tem razão em nutrir contendas. Certamente, estava havendo uma ferrenha disputa que já afetava a igreja local e suas lideranças, já que comportamentos assim criam partidarismos e afetam as pessoas próximas. Tudo bem ao contrário do que Paulo ensinava – que todos deveriam “pensar concordemente”, sem nódoa de
mágoas ou picuinhas.

Além daquela desarmonia ser contrária à verdadeira fé cristã, uma outra contradição estava espelhada nos nomes das duas servas de Deus. O nome Evódia, de evodomai, significa “ir bem”, “prosperar”, “fazer uma boa jornada”. Termos semelhantes são empregados no versículo 2 da terceira epístola de João – “Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas”. Evódia, como cristã, não estava fazendo uma jornada feliz de vida cristã, pois vivia na desavença. Por sua vez, Síntique – também um nome grego, que significa “afortunada” –, vivia na pobreza espiritual da falta de amor e perdão. Essas duas irmãs na fé estavam contribuindo para uma possível instabilidade da harmonia familiar dos irmãos filipenses.

Lembra a Bíblia que tudo o que está ali escrito é para o nosso proveito, como diz Romanos 15.4. Hoje, a lição negativa dessas duas irmãs nos chama a atenção para o nosso papel em nossas comunidades. Que sejamos instrumentos para promover a paz, a harmonia, a reconciliação – “cada um considerando o outro superior a si mesmo” (Filipenses 2:3), e tendo “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (versículo 5). Assim, conforme preconizou Paulo, desfrutaremos de bênçãos tão bem sintetizadas no significado dos nomes de Evódia e Síntique: Uma jornada feliz e afortunada.

Agnaldo L. Sacramento Presidente do Ministério Shalon - ABC e membro da Academia de Letras da Grande São Paulo.

Carta aos pastores congressistas

 

Por Derval Dasilio

Caros pastores,

Acabamos de conferir os resultados. Os senhores foram reeleitos para o Congresso Nacional representando o expressivo “voto evangélico”. Seus eleitores ignoram que certas candidaturas “evangélicas” estiveram envolvidas com a corrupção. Se os demais, figurões da política nacional, magistrados, os acompanham, não interessa. Eles não são pastores ordenados para cuidarem do rebanho de Deus. O déficit político nacional já é muito grande. Não esperamos dos senhores que aprofundem o rombo. Já vimos pastor congressista pego com a boca na botija recebendo cheques vultuosos do crime organizado para ajudá-lo na campanha. Vimos o envolvimento comprovado de dezenas de pastores nas fraudes do sistema de saúde, por exemplo na famosa Operação Sanguessuga. Não foram punidos. Não sou eu quem afirma, mas a imprensa que acompanha suas carreiras políticas. Vimos figuras evangélicas, acusadas de roubo do erário, no camburão da polícia com a Bíblia na mão. Rima horrorosa, vergonha inominável. Vimos um senador em exercício preso por fraude e roubo do erário. Vimos um juiz evangélico que vendia sentenças e mandados de soltura de criminosos perigosos, pistoleiros e traficantes do crime organizado, preso enquanto acusado de mandante do assassinato de um jovem juiz federal que o investigava. Vimos pastores presos com milhões de reais transportados na mala do carro alegando serem ofertas da igreja, e outros flagrados por câmeras enchendo meias e cuecas de propina e suborno. Centenas de casos, todos envolvendo parlamentares e congressistas evangélicos.Alguns foram inocentados, assim como vários outros políticos apontados por corrupção e outros crimes, embora tenham alcançado o Jardim do Éden na política. Aproveitem a sua sorte. Mas cuidado se acham que são deuses. A impunidade geral talvez os favoreça, porém não à consciência pública. A vaidade não deixa reconhecer, talvez. Aliás, sobre o paraíso, têm-se muita dificuldade em compreender a inutilidade dos projetos humanos. Oram a Deus para que se livrem do pecado da soberba e da prepotência, além de agradecer a propina da corrupção? Não? Deviam fazê-lo.

Um amigo viajava com um parlamentar, vinham de Brasília. Perguntou-lhe como se sentia no Congresso. O político respondeu: “Sou um estranho no ninho”, sugerindo ser uma reserva moral da nação, como pastor evangélico. Tentação digna de Adão, guardião do paraíso (perdão, do Congresso Nacional). Querendo apresentar-se acima do bem e do mal, a agitação em torno de crimes sexuais no clero católico romano rende dividendos eleitorais preciosos.

Oferece garantia para reduzir a maioridade penal – por enquanto recusada como inconstitucional –, sem referir-se a quem induz ao crime ou explora a criança e o adolescente. Interessa punir o mais fraco e vulnerável. Generalização injusta, falácia retórica. Milhares de jovens entre 14 e 19 anos, adolescentes, são os que mais sofrem mortes violentas no Brasil. Por que vivem em situação de miséria e abandono; por que são identificados em locais sem saneamento; por que moram em favelas e cortiços entre 70 milhões de brasileiros; por que não têm educação de qualidade; por que habitam em cenários de morte e violência, são candidatos, todos, ao crime ou à delinquência? Devem ser ameaçados ou auxiliados pelo congressista que irá buscá-los na adolescência excluída?

Na verdade, eles precisam dos senhores para melhorar suas vidas, e de suas famílias e comunidades, e não para serem ainda mais oprimidos pela corrupção policial associada ao crime organizado. Continuarão a estimular a vingança darwiniana da sociedade contra os mais fracos, sabendo que há um imenso contingente de adolescentes inocentes que jamais poderão defender-se de acusações ou pressupostos de delinquência? Originários das classes privilegiadas chegarão ao banco dos réus, contrariando a regra?

Outra coisa que queremos lembrar-lhes: seu compromisso cristão e de pastores, quando ordenados ministros evangélicos. Certamente lhes foi lembrado que deveriam guardar o rebanho de Deus contra todas as ameaças. Que o grande inimigo do homem e da sociedade é a presunção humana de querer situar-se no lugar de Deus. Que pastores cuidam do bem comum, devendo voltar-se para os rebanhos dos vários redis, tendências, diferenças, o universo equilibrado segundo a criação de Deus.  Que toda a sociedade, embora dividida, seja beneficiada pelo cuidado com a vida humana aviltada pela exclusão, fome e miséria, em favor da paz, nas diversas pastagens e lugares onde o equilíbrio possa ser turbado. Para que não vença o preconceito, a discriminação, os ódios entre grupos e pessoas. Sejam quais forem as suas crenças e religiões. Assim, a nação agradecerá, respeitando então o povo evangélico na política.


Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

Labirintite evangélica

 

A longa reportagem de capa da revista “Época” intitulada “Os novos evangélicos” (9 de agosto de 2010) passa a impressão de que a igreja evangélica brasileira está com labirintite. Ela está tonta há algum tempo, quase caindo para os lados. Não está bêbada nem de álcool nem do Espírito Santo. A igreja está confusa, aturdida, sem saber com certeza o que abraçar e o que desabraçar, o que manter e o que descartar. A confusão aumenta porque os impacientes querem mudar tudo e os tímidos, nada. De uma coisa, não todos, mas alguns estão absolutamente certos -- aquilo que nos últimos anos foi entrando pelas frestas da igreja precisa sair. A dificuldade é fazer o inventário das “raposinhas” que entraram na vinha do Senhor e fizeram os estragos que todos devem estar enxergando (Ct 2.15). Todavia, não podemos usar isso como desculpa, pois algumas dessas “raposinhas” são bem visíveis. Daí o subtítulo da matéria de capa da “Época”: “Um movimento de fiéis critica o consumismo, a corrupção e os dogmas das igrejas -- e propõe uma nova reforma protestante”.

Parece que o tumor está sendo espremido. Ricardo Agreste, presbiteriano, um dos entrevistados da “Época”, explica que “o grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência; é de ética e honestidade”. Ed René Kivitz, batista, outro entrevistado, diz que “as pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”. Pelo que se vê, as “raposinhas” não são tão pequenas quanto se pensa. Soberba, profanação, desonestidade, hipocrisia, ciúme, inveja, ambição (tanto pelo poder eclesiástico como pelo vil metal) -- nunca foram raposas de pequeno porte!

Com problemas de tontura, certo homem procurou o médico e recebeu o diagnóstico de labirintite. Ele saiu do consultório com duas receitas. Na primeira, havia uma lista de remédios de uso contínuo. Na segunda, o médico escreveu: “Na crise: Vertix e Betaserc”.

Sem dúvida, a igreja evangélica brasileira precisa de um remédio de uso contínuo para curar sua labirintite. Porém, enquanto a cura não ocorre, ela precisa de outros medicamentos para se livrar da horrível zonzeira do momento.

Uma onda de humildade, de convicção do pecado, de arrependimento, de confissão, de conversão talvez seja de uso contínuo. O mesmo se pode dizer de outras providências. O que os evangélicos e outros cristãos podem fazer para aliviar a tontura presente? Há uma resposta não-sofisticada, não-acadêmica, não-complexa, não-duvidosa diante da igreja. Ela não está distante, não é difícil e não mexe com os dogmas denominacionais nem pessoais. A resposta que se impõe vale-se da herança comum de todo aquele que professa o cristianismo, ou seja, evangélicos e católicos, tanto no Brasil como em outra cultura.

Se a maioria dos protestantes brasileiros, históricos e pentecostais, e ainda os neopentecostais (chamados também de pseudopentecostais), se deixarem impressionar outra vez (ou pela primeira vez, caso não tenha havido a primeira) pela pessoa, pelo ensino, pela morte vicária, pela ressurreição, pela soberania e pela consumação da vitória de Jesus sobre tudo e sobre todos -- a crise de tontura acabará. E os remédios de uso contínuo produzirão a cura da labirintite evangélica!

O bispo anglicano Kenneth Cragg gosta de lembrar: “Onde estiver encoberta a beleza da cruz, ela deve ser desvendada”.